9 de novembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 6

ELZA SOARES – 
A MULHER DO FIM DO MUNDO (2015)


“A mulher do fim do mundo
Dá de comer as roseiras,
Dá de beber às estátuas
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio
Faz a viagem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.”
(“Metade Pássaro” – Murilo Mendes, 1941)

Existem atores shakesperianos que precisam viver uma vida inteira para poder possuir envergadura suficiente para encarnar personagens do porte de um Rei Lear, Próspero ou Macbeth. Se refletirmos acerca dos nomes que compõem esta velha e esgarçada instituição chamada de “MPB”, de seus respectivos legados e de suas histórias, concluímos que Elza Soares é a mulher que viveu mais intensamente em nossa canção popular: seus 50 e poucos anos de atividades, seus dramas, seus desafios, seus discos e suas desgraças lhe deveriam conferir uns 350 anos a mais além dos 78 anos de idade declarados e/ou 85 possivelmente vividos até 2015. Em suma: Lady Elza é uma das artistas com a maior experiência em nosso meio para cantar o que se produz na cena musical contemporânea com dignidade.
O compasso atual da humanidade implicou a implosão irremediável do universo tal qual o conhecíamos: ilusões, utopias e quaisquer resquícios de sentimentalismo romântico foram estilhaçados de maneira infeliz e irremediável. Para anunciar, cantar e nos livrar da letargia destes tempos, Elza Soares foi proclamada pela produção musical do baterista, percussionista e produtor musical Guilherme Kastrup, pela direção musical de Celso Sim e por um grupo brilhante de compositores e músicos como a intérprete de A Mulher do Fim do Mundo, álbum lançado pela ex-musa de Garrincha no início de outubro de 2015.
O lançamento deste CD apresenta alguns marcos históricos dignos de registro: é a primeiríssima vez em que Elza gravou um álbum apenas com canções inéditas, além de ser o primeiro disco de estúdio da lendária cantora em doze anos – não ouvíamos nenhuma coleção de gravações inéditas suas desde Vivo Feliz (2003). A Mulher do Fim do Mundo reúne 11 canções assinadas por José Miguel Wisnik, Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Clima, Celso Sim, Cacá Machado, Alice Coutinho, Douglas Germano, para não citar outros nomes. Cada obra reflete as belezas e as tristezas do Brasil do século XXI entoadas por uma das artistas mais revolucionárias que este planeta já ouviu.
A abertura do disco, “Coração do Mar”, é um poema do modernista Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik. A voz de Elza Soares surge sem nenhuma espécie de acompanhamento musical, já deveras desgastada pela passagem cruel e inevitável do tempo, que lhe rendeu cicatrizes indeléveis e fez com que se tornasse a fênix musical tão respeitada e reverenciada pelo público. O “pedaço de sangue” cantado por Elza se apresenta através de “sentinelas equipagens, estrelas, taifeiros, madrugadas e escolas de samba” que se resumem em um navio humano que é negreiro é guerreiro neste mangue solitário ao qual chamamos de vida. A personagem que vai narrar as dores e visões a serem apresentadas nesta obra monumental se revela por completo através da dor exposta em “Mulher do Fim do Mundo”, canção assinada por Romulo Fróes e Alice Coutinho. O quarteto de cordas, a voz firme da intérprete definitiva de “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues) aliados ao compasso do samba triste demonstra que a dama que está diante de nós chora de imensa dor através de cada verso que canta, a partir de cada verdade que é exposta:

“Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como um vendaval
Me joga na avenida que não sei qual é

Pirata e super homem cantam o calor
Um peixe amarelo beija a minha mão
As asas de um anjo soltas pelo chão
Na chuva de confetes deixo a minha dor

Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do

Resto
Dessa
Vida
Na avenida
Dura
Até
O fim

Mulher
Do fim
Do mundo
Eu sou
Eu vou
Até o fim
Cantar”


As lágrimas choradas por Elza Soares refletem a experiência de uma mulher de uma força praticamente inabalável, com uma vontade incansável de cantar até que o último facho de luz a nos iluminar se apague de vez. Tudo isto será mais do que necessário para o enredo descrito pela terceira faixa do CD – e primeiro single de A Mulher do Fim do Mundo -, a incendiária “Mulher da Vila Matilde” (Douglas Germano). Esta insólita e deliciosa mistura entre punk e samba é uma sátira mordaz ao machismo e uma crítica virulenta à violência doméstica sofrida por tantas e tantas mulheres que necessita(ra)m da Lei Maria da Penha para garantir a sua integridade física e moral. A canção assinada por Germano nos adverte que se a Maria da Penha é brava, a Maria do bairro paulistano da Vila Matilde está longe de brincar em serviço quando o assunto é porrada:

“Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço

Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: – Péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você comer
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim…”


O punk-samba de Douglas Germano nos remete aos clássicos da malandragem entoados pelo saudoso Moreira da Silva em meio a distorções sonoras e batidas eletrônicas. Todavia, Elza Soares subverte a lógica da pilantragem e da típica música de fossa – a primeira apresenta a figura masculina em infinita vantagem, enquanto a segunda nos traz a mulher como vítima de desencontros amorosos – ao encarnar uma figura feminina que não apenas denuncia os males concebidos e cometidos pelo seu agressor com ironia, bom humor e inteligência, ela se vinga dele das piores maneiras que lhe convém:

“… E quando o Samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho
Teu bloco de pule
Teu dado chumbado
Ponho água no bule
Passo e ofereço um cafezim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

E quanto tua mãe ligar
Eu capricho no esculacho
Digo que é mimado
Que é cheio de dengo,
Mal acostumado
Tem nada no quengo,
Deita, vira e dorme rapidim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim.”

A faixa que sucede “Mulher de Vila Matilde”, “Luz Vermelha” (Kiko Dinucci & Clima), é o melhor momento de A Mulher do Fim do Mundo. A fusão de sonoridades distintas se faz através do diálogo furioso das guitarras de Dinucci e Rodrigo Campos, da percussão precisa de Felipe Roseno, das batidas secas da bateria de Guilherme Kastrup e da dicção vocal inconfundível de Elza. A letra de Clima retrata um universo em estágio avançado de decomposição e abandono. Quem sobreviver a este mundo apocalíptico em putrefação está fatalmente condenado à solidão e ao desencanto permanente:


“Telhado agora é porão tira de cima de mim esse pedaço de pedra
Me dá um abraço que o chão se abriu debaixo de nós e até o coxo tropeça
Bem que o palhaço falou que o laço vai se fechar e o laço sempre se fecha
Bem que o anão me contou que o mundo vai terminar num poço cheio de merda

Quem tinha tudo na mão quem não prestou atenção quem tem tamanco não sobra
Quem tem cabeça e pulmão bexiga rim coração já vai pulando na cova
Quem é doente do pé, o pai de todos quem é, cadê o rei da cocada
Tá na quebrada quebrou e o mundo todo afundou no dia da pá virada

Do meio-dia no meio dia do tiroteio
Me deu receio do feio que veio lá
De ficar velho no meio do mundo inteiro
Me deu receio da bomba que vou soltar

Quem tem cadarço não sobra
Quem tem um pão pra comer
Quem tem cadarço não sobra
Meu amor
Meu amor

Olha, não tem ninguém na rua
Não vi ninguém no açougue
Não tem ninguém lá pra abandonar
Olha, não tem ninguém na praça
Só tem um sol sem graça
Não tem ninguém pra ver e contar.”

Os versos desta canção foram abertamente influenciados por uma das películas mais significativas da sétima arte no Brasil: O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. A pedido de Kiko Dinucci, a letra foi “encomendada” com o intuito de expor as vísceras dos trópicos entristecidos de um país absurdo. Clima encontrou em Sganzerla a matéria-prima para retratar a angústia, a solidão, a aspereza e a desesperança dos grandes centros urbanos, que oprimem fatalmente os sujeitos através do uso amplo, irrestrito e implacável da lei do mais forte sob os mais fracos.


Se o digníssimo leitor/ouvinte aguarda alguma balada romântica ou algum samba alegre e feliz em A Mulher do Fim do Mundo, é melhor deixar esta ideia de lado. O apocalipse segundo Elza Soares, como já podemos perceber, está longe de apresentar quaisquer sinais de romantismo. A canção que retira de vez por todas a inocente esperança dos mais desavisados é “Pra Fuder”, de Kiko Dinucci:

“Olho pro meu corpo
Sinto a lava escorrer
Vejo o próprio fogo
Não há força pra deter

Me derreto tonta
Toda pele vai arder
O meu peito em chamas
Solta a fera pra correr

Unhas cravadas
Em transe latejo
Roupas jogadas no chão
Pernas abertas
Te prendo num beijo
Sufoco a sofreguidão

Meu temporal me transforma em loba
Presa, você vai gemer
Feito um cordeiro entregue pra morte
Seu sussurrar a pedir:

Pra fuder! Pra fuder! Pra fuder!”


Em um novo lance de ironia, percebemos mais uma vez a figura feminina no controle de uma situação na qual era o homem quem determinava as regras e os papéis a serem desempenhados, ou seja, é a mulher quem decide a ocasião e o momento mais convenientes para praticar – vejamos bem: não o ato de fazer amor, não o ato de fazer sexo, mas o ato de FODER. O pioneirismo e a ousadia de Elza Soares são os ingredientes perfeitos para que a interpretação desta ode descarada ao tesão composta brilhantemente por Dinucci e temperada pelo violão do autor (que nos remete ao estilo inconfundível de João Bosco) e pelos metais em fúria absoluta do Bixiga 70. A pele em chamas e as unhas afiadas da loba perigosa encarnada por Elza são os estandartes que sepultam definitivamente o machismo na canção brasileira.
A sexta faixa de A Mulher do Fim do Mundo é fruto de uma colaboração coletiva de Celso Sim com Pepê Mata Machado, Joana Barossi e Fernanda Diamant. “Benedita” conta a saga de uma intrépida travesti em meio aos percalços e armadilhas da noite. Ao contrário do que o nome próprio sugere – Benedito é nome de santo, nos remete a bondade, típico e comum de negros tementes das leis de um Deus cristão -, a protagonista é o retrato de uma negra marcada pela marginalização de um sistema que ainda não reconhece os integrantes das comunidades LGBT com o devido respeito. Tal qual o Nego Dito de Itamar Assumpção (cujo nome ficcional completo era Benedito João dos Santos Silva Beleléu), Benedita também tinha os seus embates com a polícia:

“Benedito não foi encontrado
Deu perdido pra tudo que é lado
Esse nêgo que quebra o quebranto
Filho certo de tudo que é santo

Benedito é uma fera ferida
Traz na carne uma bala perdida
E uma bala de prata guardada
Pro meganha incauto, arremata
Arremata, arremata, arremata…”

A “fera ferida” que surge em uma esquina perigosa da noite escura está longe de possuir as feridas apontadas por uma famosa canção de Roberto Carlos. Os metais do Bixiga 70 e as guitarras de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos conseguem dar o tom de suspense necessário à trama policialesca protagonizado por um(a) herói/heroína de atributos incomuns:

“… Ele que surge naquela esquina
É bem mais que uma menina
Benedita é sua alcunha
E da muda não tem testemunha

Ela leva o cartucho na teta
Ela abre a navalha na boca
Ela tem uma dupla caceta
A traveca é tera chefona

Benedita, da zona, é o crack
(é o crack, é o crack, é o crack)
A poliça, a miliça e o choque
Na surdina preparam o ataque
(é o crack, é o crack, é o crack)
Ela jura que era um achaque
Na bocada os clientes só rock
Ela morre, ela mata, ela é craque
(ela é craque, ela é craque, ela é craque
Ela é craque, craque, craque)

Homicida, suicida, apareceu, aparecida
É maldita, é senhora, é bendita, apavora
Vem armada, não rendida, faz do beco sacristia
Crack agora, não demora, joga pedra, nessa hora.”


Por fim, a Rainha do Crack trava uma batalha implacável contra aqueles que representam a moral, os bons costumes e o controle social imposto por um Estado de Direito retrógrado e extremamente conservador. Benedita não é um simples retrato de um indivíduo que habita às margens do que entendemos como “avanço social”, ela é a representação de nossa hipocrisia, de nossa covardia e, principalmente, de nossa conivência em relação às minorias sexuais no Brasil. Elza Soares conseguiu traduzir este universo de desilusão e violência com bastante naturalidade, ao narrar a rapsódia sangrenta de uma travesti, resultando em um dos números mais marcantes de A Mulher do Fim do Mundo.


A sétima canção do CD é um dos momentos mais leves e descontraídos desta coleção. “Firmeza?!”, de Rodrigo Campos, conta com a participação especial do compositor nos vocais. O encontro de Rodrigo, um talento musical surgido em São Mateus (bairro da Zona Leste de São Paulo) com a experiente artista oriunda da favela de Vila Vintém (situada em Padre Miguel, um dos berços sagrados do samba carioca) foi marcado pelo bom humor e pelo delicioso contraste de gírias que vai muito além das eternas picuinhas entre paulistas e cariocas. O arranjo de metais do Bixiga 70 dialoga harmoniosamente com as pick-ups do DJ Marco e com as vozes de Elza e Campos:


“Beleza, mano?
Fica com Deus
Quando der a gente se tromba
Firmeza?!

Pena que o corre é mil grau
Pena que o corre é mil grau
Pena que o corre é mil grau
Pena que o corre é mil grau

Você é meu irmão, moleque
(Você é minha irmã, menina)
Você é meu irmão, moleque
(Você é minha irmã, menina)

Eu tô feliz com teu sucesso
Eu tô feliz com teu sucesso
Muito feliz com teu sucesso
Eu tô feliz com teu sucesso

E manda um beijo pra menina
E manda um beijo pra menina
E manda um beijo pra menina
E manda um beijo pra menina”

O tango “Dança” (Cacá Machado & Romulo Fróes) trata de vida e morte sem rodeios ou presenças de metáforas elaboradas. Elza Soares deseja ter a possibilidade de driblar o tempo, de renascer após cada golpe aplicado pela vida, de bailar pela existência sem o pavor do sofrimento inevitável da dor e da decepção que afligem a nossa carne sofrida:


“Daria a minha vida
A quem me desse o tempo
Soprava nesse vento
A minha despedida
Debaixo dessa terra
Não me interessa
O movimento
Debaixo do cimento
Não tenho pressa
Não há quem queira dançar
Mas se eu me levantar
Ninguém irá saber
E o que me fez morrer
Vai me fazer voltar

Melhor ficar aqui
Pra que mentir?
Tem diferença
Mais cedo do que penso
Vou desistir
Não há quem queira dançar

Deixo a chuva que derruba o céu lavar
Lavo a carne que ainda tem no osso
Sinto o osso antes dele se quebrar
Abro a tampa e deixo a dança entrar no corpo.”

“O Canal”, de Rodrigo Campos, dá prosseguimento ao disco com uma narrativa citando o Imperador Alexandre III da Macedônia (historicamente conhecido como “Alexandre, o Grande”) e os personagens fictícios Chico, Alessandra e Mané, que estão a cavar um canal próximo ao Mar Egeu, sob a vigilância implacável do Império:


“Chico, Alessandra e Mané vão a pé, vão a pé
São sete léguas de chão, meu irmão, meu irmão

Cavoucando o chão de sal
São três horas da manhã
Alessandra não vai bem
Sente o brilho do farol de Alexandre O Grande

Dizem que o grande Alexandre escreveu sobre um rio
Um canal subterrâneo no Egeu, em Aydin

Cavoucada o chão de sal
São três horas da manhã
Alessandra não vai bem
Sente o brilho do farol de Alexandre O Grande…”

As vidas descritas em “O Canal” foram devoradas pela desilusão gerada pela repressão, pela vontade de grandeza e pelo ímpeto eterno da ganância. Tais quais as personagens de Tchekhov, as existências de Chico, Alessandra e Mané estão fadadas ao fracasso, à morte simbólica antes do corpo decretar o fim de suas atividades, o que não deixa de ter uma certa semelhança com as milhares de existências dedicadas à subserviência de fazendeiros e coronéis brasileiros, por exemplo. Elza consegue cantar tamanho desespero com o lamento e a pontinha de esperança sugeridas pela letra de Rodrigo Campos:

“… Almas perdidas navegam o rio, o canal
Eternamente navegam o rio vertical

Alessandra já morreu
Mas precisa acreditar
São três horas da manhã
Vê o brilho do farol de Alexandre O Grande.”

A penúltima faixa de A Mulher do Fim do Mundo, “Solto” (Marcelo Cabral & Clima) conta com belo arranjo de cordas de Marcelo Cabral e a voz serena e firme de Elza Soares. A solidão é a única presença a nos acompanhar diante do fim, a sombra a nos conduzir ao destino incerto e inevitável que nos aguarda a qualquer momento, depois de amanhã ou daqui a 200 anos:

“Solto
Quase outro
Corpo
O meu corpo
Caminha
Sozinho sem você (sem)
Nada perto
Torto
É tão certo
Caminha
Na minha sombra
Clara
Reta
E com
pleta
mente
rara
Sem você

Solto
Quase morto
Corpo
O meu corpo
Caminha
Na minha sombra.”


A Mulher do Fim do Mundo completa, enfim, sua jornada. Ao contrário de “Coração do Mar” – iniciado em meio ao silêncio no qual apenas se ouvia a voz de Elza Soares – “Comigo” (Romulo Fróes & Alberto Tassinari) se inicia com ruídos e distorções ensurdecedores, dando-nos a sensação de um universo em plena destruição. Para a caminhada final, Elza sentencia que lega consigo o seu bem mais precioso: dentro de seu coração, ela carrega seu bem mais precioso, o mesmo que lhe possibilitou a origem:


“Levo
Minha mãe
Comigo
Embora
Se tenha ido

Levo
Minha mãe
Comigo
Talvez
Por sermos tão parecidos

Levo
Minha mãe
Comigo
De um modo
Que não sei dizer

Levo
Minha mãe
Comigo
Pois deu-me
Seu próprio ser.”

Em um universo de estrelas de música Pop efêmeras e (pretensiosamente) flamejantes, este álbum de Elza Soares será relembrado pelos seres humanos até o fim de nossa existência coletiva neste plano. No instante em que apenas as criaturas das espécies mais peçonhentas estiverem no mundo para testemunhar o que o homem fez de melhor e de pior com o planeta que o gerou, a voz de Elza estará ecoando pelos quatro ventos para quem estiver de corpo presente.
A Mulher do Fim do Mundo é muito mais do que um grande álbum: é o melhor lançamento de 2015 e, arrisco dizer, o mais importante CD dos anos 2010 e um dos trabalhos mais antológicos já realizados por artistas brasileiros em todos os tempos. É o retrato fiel dos excluídos, das desilusões, dos párias que a sociedade insiste em expelir de seu convívio desde sempre. Elza consegue dar voz a todos estes seres por também ser um deles, por ser um de nós, e é por isso que nenhuma artista pertencente à nossa bem-dotada galeria de cantoras poderia ter gravado este disco. Só Elza Soares teria este poder. E ela o utiliza com uma propriedade impressionante...



A primeira versão deste texto foi publicada no site Pequenos Clássicos Perdidos em 11 de dezembro de 2015:

6 de novembro de 2016

TROVA # 95

O ALTO PREÇO DO PENSAMENTO


“Pena eu não ser burro
Não sofria tanto”
(Raul Seixas, Kika Seixas e Cláudio Roberto, 1980)


         O maestro soberano Antônio Carlos Jobim dizia que o Brasil não era um país para principiantes. Raul Seixas, sarcasticamente, ainda iria entoar o verso “A solução é alugar o Brasil”. Ao tentarmos entender os acontecimentos políticos e sociais do Brasil de 2016, vejo que estas frases fazem cada vez mais sentido. As contradições que regem a vida de muitos brasileiros são dignas de um estudo acadêmico de fôlego ou de uma ação urgentíssima de um exorcista para dar um pouco mais de juízo e coerência para as pessoas.
         Os efeitos colaterais do golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff do cargo e que varreu o PT do Governo Federal já começaram a aparecer diante dos olhos de todos: o governo golpista e ilegítimo de Michel Temer tem adotado medidas de altíssima austeridade contra as camadas mais pobres da sociedade brasileira. A aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que limita os gastos públicos com saúde e educação por 20 anos é um retrocesso de três décadas ou mais. Para poder garantir a aprovação destas medidas, Temer e sua corja aumentaram os salários do judiciário e do legislativo e investiu rios de dinheiro no GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) para garantir a tão sonhada tranquilidade enquanto “trabalha” pelo Brasil.
         A maioria do eleitorado nacional, descontente com a crise econômica que tem deixado milhões de brasileiros desempregados e sem dinheiro, elegeu (em alta escala) os políticos mais conservadores e reacionários do momento para as prefeituras do país. As principais capitais do Brasil serão governadas pelas expressões locais do que há de pior em matéria de retrocesso para o mandato 2017-2020: João Doria Jr. (São Paulo), Marcelo Crivella (Rio de Janeiro), Alexandre Kalil (Belo Horizonte), Rafael Greca (Curitiba) e Nelson Marchezan Jr. (Porto Alegre). Um lobista privatizador, um pastor evangélico, um cartola do futebol, um detrator dos pobres e um neto da ditadura militar. Milhões de pessoas nas mãos do que há de mais repugnante na classe política brasileira graças ao antipetismo ostensivo que a mídia brasileira dissemina diariamente e à falta de tradição reflexiva crítica da maioria dos eleitores.
         A busca pela coerência e por uma compreensão mais clarividente dos fatos e acontecimentos nos causa sentimentos dos mais negativos: raiva, frustração, decepção, desilusão, desespero, descrença e muitos palavrões impublicáveis. Não se trata apenas de um mero desapontamento: tamanha perplexidade se dá diante de dois fatos: 1) o desprezo de uma parcela expressiva da sociedade por aqueles que pensam e refletem acerca dos ocorridos (por defendermos a democracia e discordarmos veementemente da cartilha neoliberal, somos tachados de “petistas”, “mortadelas”, “corruptos” e por aí vai...); 2) a derrocada dos grupos de esquerda, fragmentada e desunida, enquanto uma onda reacionária de extrema direita surge aos olhos do público com a bênção e a chancela do GAFE.


         Vislumbrar o apoio significativo para organizações que abominam as políticas sociais dos governos petistas, que acham que direitos de LGBTs, negros e mulheres são privilégios, que flertam com o fascismo e acham nomes como os de Adolf Hitler, Jair Bolsonaro e Donald Trump o verdadeiro máximo é algo que não apenas dói no fundo da alma, como também é fruto de muita incoerência e estupidez quando os apoiadores são compostos por pessoas não-brancas e/ou não-detentoras de privilégios. É de uma burrice atroz e impressionante ao estarmos diante de tamanha contradição. Os cidadãos que concedem seu apoio às forças fascistas emergentes são os mesmos que tecem críticas ferozes às milhares de ocupações de escolas e universidades do Brasil – para eles, os estudantes que estão protestando contra a reforma do Ensino Médio e da PEC são meros vagabundos, arruaceiros, maconheiros e inimigos da ordem pública desinteressados em estudar.


         São episódios como estes que revelam a extensão do preconceito e do ódio de classes, raças, minorias e ideologias que circulam na mídia e no discurso do brasileiro comum. A livre manifestação do fascismo sob a chancela de uma “libertinagem de imprensa” que atende aos interesses das oligarquias brasileiras tem ajudado a eleger políticos dos mais conservadores nos últimos anos. Os efeitos das “medidas impopulares” destes governistas serão sentidos pela classe trabalhadora e pela classe média que apoiou os programas de governo das elites. A democracia, esta verdadeira exceção do sistema político brasileiro, é comprometida e vilipendiada mais de uma vez pela falta de pensamento crítico dos que deveriam zelar por ela.


         Quando quero entender os rumos nefastos que o Brasil tem tomado nestes tempos mais recentes, sempre vou ao Google em busca das máximas incomparáveis de Nelson Rodrigues. Não consigo encontrar resposta contundente em nenhum filósofo, artista ou intelectual que me satisfaça tanto quanto as reflexões sensacionais do autor de Toda Nudez Será Castigada. Disse Nelson certa vez: “É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez”.
         Sim, Nelson: você tem razão! O problema é que a hediondez do Brasil se faz cada vez mais presente enquanto a delicadeza e a compaixão se esvaem a olhos vistos. Nem é preciso pagar o alto preço de um pensamento coerente para reconhecer isto... 


26 de outubro de 2016

DISCOS DE VINIL # 5

MADONNA – LIKE A PRAYER (1989)


O final da década de 1980 prometia uma série de mudanças para a música do planeta. Madonna, uma das protagonistas da música e dos costumes que revolucionaram conceitos e definiram uma era, não estava incólume a tais ventos de renovação.


No final de 1988, Madge tinha acabado de completar 30 anos, vivia um casamento em crise com Sean Penn, tentava uma carreira de atriz séria em Hollywood e na Broadway (sem a mesma repercussão de Desperately Seeking Susan, sua estreia na telona) e via a necessidade de renovar a sua imagem e som. Ou seja, a música Pop de Madonna, que lhe rendeu clássicos como “Everybody”, “Holiday”, “Material Girl” e “Dress You Up” necessitava se tornar mais adulta, menos voltada para as meninas adolescentes que imitavam os figurinos e trejeitos explorados por ela nas turnês dos álbuns Like a Virgin e True Blue. Abordar temáticas mais maduras e menos juvenis tornou-se prioridade para a Pop Star.


A Madonna que surgiu para os olhos do grande público em 1989 tinha sofrido a mutação camaleônica mais radical que aquele espécime poderia ter tido até então. Seus cabelos tinham abandonado a tintura loira platinada de Nikki Finn, sua personagem alter-ego do filme Who’s That Girl?, para assumirem um tom castanho escuro. Seu figurino era, surpreendentemente, mais recatado e discreto – justamente para despistar o mundo da música com a grande revolução que já estava em curso.


O casório com Penn chegava finalmente ao fim com a alegação de “diferenças irreconciliáveis” em janeiro de 1989 quando, na verdade, todos sabiam que Sean era dotado de um ciúme extremamente doentio e que chegava por vezes a bater em fotógrafos e submeter a então esposa em episódios de cárcere privado (isso quando Madonna não apanhava literalmente do então marido).


A chegada aos 30 anos de idade fez com que a perda precoce da mãe (levada pelo câncer pouco depois de ter completado 30 anos de idade) e a relação delicada com o pai se tornassem ainda mais doloridas e agudas e, com tudo isso, junte-se muita sexualidade reprimida pela religiosidade extrema de uma família católica. Eis a atmosfera que fez do álbum Like a Prayer a obra-prima de Lady Madonna até aquele momento.



A faixa-título abre o disco com uma guitarra distorcida, um coral de negros, um órgão Hammond B-3 e Madonna anunciando que a vida é um mistério e que todos nós deveríamos nos manter de pé sozinhos, porém ao ouvir um chamado especial, nos sentimos amparados como se estivéssemos em casa e livres de toda a solidão. A prece de Madonna (uma ode musical ao grupo Sly & The Family Stone) era muito simples, muito direta, porém ninguém tinha ideia do quão seria provocante até ver o vídeo dirigido pela diretora Mary Lambert, a mesma que dirigiu a Pop Star em “Like a Virgin”: Madge aparece como testemunha de um crime cometido por um rapaz negro, depois convertido em santo religioso.


Nenhum problema se Madonna não tivesse aparecido beijando lascivamente este símbolo religioso na boca e muito menos se ela não aparecesse dançando freneticamente à frente de cruzes em chamas proclamando que através da sua prece, sua voz me leva para onde você quiser que eu vá, blá blá blá…


A mídia ficou em estado de choque, as instituições religiosas ficaram revoltadas (o Papa João Paulo II liderou um boicote contra o videoclipe) e a Pepsi – que patrocinaria a próxima turnê mundial da Diva – decidiu cancelar o apoio financeiro milionário e Madonna foi eleita pela MTV americana e outros veículos de mídia da época como a artista da década. O escândalo, mais uma vez, rendeu imensa popularidade à uma das artistas que melhor souberam se utilizar da mídia e do marketing para promover sua imagem e som.


A produção do disco ficou dividida entre Madonna e seus parceiros produtores/compositores Patrick Leonard (geralmente responsável pelas baladas do álbum) e Stephen Bray (que ficou a cargo das faixas mais funky desta coleção) e ainda contou com a participação especial de Prince, que tocou vários instrumentos e ainda dividiu os vocais e os créditos de “Love Song”. Em linhas gerais, Like a Prayer é um marco que redefine os limites do Pop, com as letras mais confessionais que Madge escrevera até então. “Express Yourself” é um hino feminista, que aponta para que as mulheres jamais devem se satisfazer com a possibilidade de ficar em segundo plano. “Oh Father” e “Promise to Try” são duas baladas tristíssimas e respectivamente dedicadas ao seu pai e à sua mãe. Já “Keep it Together”, parceria dela com Bray, é uma ode à toda sua família (a Pop Star possui um total de sete irmãos e meio-irmãos).




Like a Prayer rendeu seis singles de sucesso para Madonna: “Like a Prayer”, “Express Yourself”, “Cherish” – que contou com um videoclipe antológico em preto e branco dirigido pelo fotógrafo de moda Herb Ritts), “Oh Father”, “Dear Jessie” (cantiga infantil dedicada à filha de Patrick Leonard) e “Keep it Together”. “Till Death Do Us Part” é uma mensagem clara e feroz ao já ex-marido Sean Penn, “Spanish Eyes” toca no ainda tema tabu da AIDS, que já tinha começado a dizimar milhares de pessoas ao redor do mundo e “Act of Contriction” mistura trechos da Bíblia Sagrada com monólogos de Madonna com a guitarra de Prince e lobos de vocalises do Andrae Crouch Choir (que cantou na faixa-título) em dois minutos e dezenove segundos de delírio religioso.






A partir de 1989, o mundo passou a olhar para Madonna não apenas como uma mulher que realmente tinha o poder de influenciar pessoas, mas principalmente como o de uma Pop Star que iria mudar o mundo. Like a Prayer foi a jogada fundamental para que Madge redefinisse as noções de imagem e entretenimento: quem quisesse fazer parte deste mundo, deveria seguir os rastilhos de pólvora deixados por esta baixinha saída de Bay City, Michigan, para invadir as casas de todo o planeta e rezar o seu credo.


Por isso, prepare os seus ouvidos e o seu coração e ouça/veja/sinta a Paixão segundo Madonna…

TROVA # 94

A RAINHA MARATONISTA


"Does it feel that your life's become a catastrophe 
Oh, it has to be for you to grow, boy..."
(Richard Davies & Roger Hodgson, 1979)


Para D. Elizabeth, minha mãe, no dia dos seus 60 anos. 

Em mais de uma década e meia como estudante e professor de Literatura, fui desafiado a interpretar textos e personagens dos mais diversos. Nenhum destes, entretanto, é mais desafiador para mim do que uma personagem da vida real, a mais importante de todas elas, diga-se de passagem. Escrever sobre esta personagem é tão desafiador quanto escrever um Projeto de Doutorado, por exemplo...
Minha mãe, D. Elizabeth, tem nome de rainha. Personalidade fortíssima. Dela herdei os olhos castanhos e o sorriso que faz os olhinhos encolherem de felicidade. Não sei se a inspiração para os meus avós maternos escolherem o nome dela foi para homenagear a Rainha da Inglaterra ou Liz Taylor. Ao contrário do que o nome sugere, nunca sentou soberana em um trono com um cetro na mão: sempre batalhou como a melhor das operárias para o bem-estar do marido, dos filhos e daqueles que ela ama.
Nem sempre consegui ter a melhor interpretação de minha mãe. Em muitos momentos eu a questionei, a contestei e fiz coisas das quais eu hoje me envergonho. Ao olhar para o retrovisor do tempo e das memórias, penso na quantidade de erros que cometi e na necessidade de sempre aprender com cada um deles. Nada fácil para pessoas contestadoras, geniosas e orgulhosas como eu. Depois dos 30, nossos egos ficam em segundo plano e nos permite maior serenidade para olhar para tudo com mais honestidade.
De perto ou de longe, D. Beth nunca deixou de me apoiar naquilo que eu quisesse fazer. Sempre foi exigente com meus estudos - não seria quem eu sou hoje se não fosse por ela, que abriu mão de uma carreira em nome dos filhos. Nos tropeços e nas vitórias, sempre teve sua palavra de apoio e a torcida mais intensa. Mesmo quando eu achava que o presente era uma catástrofe e o futuro nada promissor, lá estava ela para me dizer que não deveria desistir jamais.
Pensei que minha mãe chegaria aos 60 anos como as típicas senhorinhas de antigamente: em vestidos cheirando a naftalina, com cabelos brancos e sentada em uma cadeira de balanço. Como D. Beth sempre foi preocupadíssima com saúde e bem-estar, decidiu investir seriamente para jamais atingir este velho e surrado estereótipo. E conseguiu: Betinha (para os íntimos) atingiu a marca dos 60 dando um banho em muitas mulheres da idade dela.


D. Beth descobriu a fonte da juventude aos 50, quando começou a praticar corridas. Começou com caminhadas para se livrar do cigarro; depois começou a andar mais rápido; em pouco tempo, passou a fazer corridas de 6km aos domingos; há dois anos, pelo menos, faz meias-maratonas e nos enche de orgulho. Hoje em dia, é raro para mim acordar aos domingos e NÃO encontrar fotos de D. Beth correndo para lá e para cá em cada um dos cantos do Rio de Janeiro, dando um banho de disposição em mim e em tantos outros que vivem uma vida sedentária.
Falar deste e de outros aspectos de D. Beth é muito pouco para descrever a importância dela para mim, meu Pai, meu irmão, meu sobrinho e todas as pessoas da nossa família. Minha Mãe é muito, muito mais do que isso. Acredito que ela adoraria ser lembrada daqui a 100 anos como filha, irmã, esposa, mãe, tia e avó que adorava correr maratonas. Por isso, não só desejo vida longa a ela por ela ter me carregado no ventre por nove meses e por sempre ter sido quem ela foi e é. Quero que Queen Elizabeth viva bastante para que ela possa continuar inspirando tantas pessoas por ela ser o exemplo de vida que ela é.

Nossas referências de vida devem ser homenageadas diariamente. Por isso deixo registrado em forma de crônica para que ela sempre possa se lembrar do filho mais velho, que gostava de escrever desde bem criança...


23 de outubro de 2016

TROVA # 93

O ROMANCE MUSICAL DE MARISA ORTH

Foto: Vinicius Grosbelli

“Na fama, fica-se louca; no fracasso, mais ainda”
(Marisa Orth)


Eu era uma criança de nove anos de idade quando vi Marisa Orth pela primeira vez na TV. Tínhamos retornado ao Rio de Janeiro depois de um tempo morando em Porto Alegre por causa das obrigações profissionais de meu pai e assistíamos as novelas das 8 com uma assiduidade religiosa. Naquela época, Marisa despontava como Nicinha, a namorada esfuziante e ninfomaníaca de Antônio Fagundes em Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu. Aquele trabalho fez da jovem atriz uma estrela que brilharia intensamente na TV, nos palcos e em grandes produções do Cinema Brasileiro.

Marisa Orth na novela Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu

Marisa Orth como Maralu Menezes

Outra lembrança, bem remota, de Marisa era quando ela encarava a cantora e apresentadora de TV Maralu Menezes e estava à frente da antológica banda Vexame. Também lembro de sua participação como a hostess do primeiro Video Music Brasil, prêmio anual da finada e saudosa MTV Brasil que premiava os melhores videoclipes brasileiros da safra 1994-1995. Um detalhe importante: o penteado bufante, o vestido extravagante e o tipo físico da bela atriz (Marisa é uma mulher bem alta, o que lhe dá um status de uma versão feminina de Golias em cima de qualquer palco) eram a cara da MTV da primeira metade da década de 1990 – irreverente, sexy e sofisticadamente debochada.

Marisa Orth no primeiro Video Music Brasil, da extinta e saudosa MTV Brasil
Marisa Orth como Magda no humorístico Sai de Baixo
Marisa Orth em Doces Poderes, de Lúcia Murat
Marisa Orth em Durval Discos, de Anna Muylaert
O que sempre me chamou a atenção em relação à Marisa Orth é o fato dela ser distinta de outras atrizes: a inteligência, a versatilidade na realização de papeis cômicos e dramáticos e a belíssima voz de mezzo soprano quando abria a boca para cantar. Jamais iremos nos esquecer da tapada gostosona Magda, que roubava a cena do humorístico Sai de Baixo e que era bem diferente da atendente da sorveteria de Durval Discos e da corretora de imóveis mal-humoradíssima de Toma Lá, Dá Cá e de Valéria, a gerente executiva chorona e deliciosamente amargurada de Odeio Segundas. Gostava muito de suas intervenções durante as primeiras temporadas do Saia Justa, programa que dividia com Rita Lee, Fernanda Young e Mônica Waldvogel. Sempre quis ter assistido uma apresentação da Vexame ou do Show do Gongo só para poder ver o talento de Marisa em ação diante de poucos metros de distância pelo simples fato dela ser uma artista que combina inteligência, bom humor, drama, melodrama, música brega e stand up comedy como pouquíssimos no meio artístico brasileiro...

Marisa Orth como Rita em Toma Lá, Toma Cá
Marisa Orth como Valéria em Odeio Segundas

Marisa Orth, Fernanda Young, Rita Lee e Mônica Waldvogel na primeiríssima formação do programa Saia Justa
*



As grandes oportunidades sempre aparecem em nossas vidas do modo mais inesperado e surpreendente. Depois de uma batalha em vão para comprar ingressos para uma série de shows de Ney Matogrosso em São Paulo, tínhamos descoberto que o Auditório Ibirapuera receberia uma apresentação do espetáculo Romance, Vol. III: Agora Vai!, no qual Marisa cantava clássicos do cancioneiro romântico nacional e internacional. E com um aditivo: vários momentos de stand up comedy, dando um banho tremendo em muitos desses comedians que se apresentam por aí... O melhor de tudo era a possibilidade de ver Marisa Orth cantando a pouquíssimos metros de distância, ao contrário da leve frustação passada quando a vi encarnando a hilária Mortícia Addams no musical A Família Addams sentado em uma das cadeiras mais afastadas do Teatro Renault.

Marisa Orth em Romance, Vol. III: Agora Vai! - Foto: Mila Maluhy
Marisa Orth em Romance, Vol. III: Agora Vai! - Foto: Mila Maluhy
Marisa Orth em Romance, Vol. III: Agora Vai! - Foto: Mila Maluhy

Romance, Vol. III: Agora Vai! é a continuidade de Romance, Vol. II (2009), no qual Marisa Orth canta canções de amor que abordam os dramas da paixão a partir de seus altos e baixos – ao contrário do que eu e muitos outros pensavam, Marisa não realizou o Romance, Vol. I por achar que seria um título excessivamente pretensioso para um espetáculo, mas que um dia fará o Romance, Vol. I: Finalmente liberado sem cortes e com alguns arranhões!.



A primeira versão do projeto, que gerou um CD, tinha versões para “I’m Not in Love” (10cc), “Minha Fama de Mau” (Roberto & Erasmo Carlos), “Sofre” (Tim Maia), “Demais” (Antônio Carlos Jobim & Aloysio de Oliveira), “Fruto Proibido” (Rita Lee), dentre outras. Para a segunda versão do espetáculo, Marisa Orth incluiu outras pérolas do repertório amoroso que faz a cabeça de todas as tribos como “Transas de Amor (Os Sonhos de Quem Ama)” (Marina Lima & Antônio Cícero), “Ciúmes de Você” (Luiz Ayrão), “De Tanto Amor” (Roberto & Erasmo Carlos), além de “I Feel Love”, Aparências”, “Baby Come Back” e “Fala”, sucessos de Donna Summer, Márcio Greyck, Player e do lendário grupo Secos & Molhados. Ao setlist deste trabalho ainda tivemos uma leitura bastante descontraída para “As Dores do Mundo”, de Hyldon, e a hilária “Insanidade Temporária” (de André Abujamra & Flávio de Souza – gravada no CD Romance, Vol. II), no qual podíamos ver o diferencial de uma cantora que também é uma atriz singular.

Marisa Orth em Romance, Vol. III: Agora Vai! - Foto: Mila Maluhy
Marisa Orth em Romance, Vol. III: Agora Vai! - Foto: Mila Maluhy
As facetas do romance são contempladas com toda a irreverência possível: Marisa Orth ora se comporta como uma mulher fatal, ora faz as vezes de uma pesquisadora que pretende palestrar sobre relacionamentos para o público pagante com o intuito de decifrar os mistérios das relações humanas. O fator complicador dos encontros amorosos seria justamente o cérebro, este órgão que, segundo Marisa, “trabalha 24h por dia desde o dia que nasce até o dia em que se apaixona”. A hostess do show fala de suas experiências amorosas, entrevista o público, faz piada com os presentes, faz troça e drama em cima de suas próprias desgraças amorosas: a quintessência do romance, impulsionado pelo que há de melhor de brega e chique presente na canção popular.


Marisa Orth em Romance, Vol. III: Agora Vai! - Foto: Mila Maluhy

Marisa Orth em Romance, Vol. III: Agora Vai! - Foto: Mila Maluhy



O que aprendemos depois de duas horas de espetáculo? O romance musical de Marisa Orth nos ensina que toda relação amorosa é feita de altos e baixos, de vitórias e derrotas, INs e OUTs. Devemos chorar quando preciso, evidentemente; porém é preciso aprender a rir das tragicomédias amorosas que regem a vida privada daqueles que amam. Aprender esta lição através de uma artista incrível faz com que a nossa vontade de assistir Romance, Vol. III: Agora Vai! ocorra mais de uma vez. O aprendizado é garantido. As risadas também. Tudo isso rindo e cantando junto com a bela estrela a comandar o espetáculo lá de cima do palco ou no meio da plateia...