16 de outubro de 2016

TROVA # 92

“THANK YOU, BOB!”
(alguns bons motivos para celebrar o Prêmio Nobel de Literatura de Bob Dylan)



“Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won’t come again
And don’t speak too soon
For the wheel’s still in spin
And there’s no telling who that it’s naming
For the loser now will be later to win
Cause the times they are a-changing”
(Bob Dylan, 1963)


Dentre as notícias tristes e alarmantes que tem surgido em 2016, eis que acordo no dia 13 de outubro com a surpreendente notícia de que o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura era ninguém mais, ninguém menos do que Bob Dylan! Fiquei besta com o fato de que a Academia Real de Ciências da Suécia nunca tinha concedido tamanha honra a um artista da canção. E ainda mais surpreso de que Dylan concorria com nomes de altíssimo prestígio literário como o japonês Harumi Murakami, o norte-americano Philip Roth e a brasileira Lygia Fagundes Telles – para quem eu estava torcendo, visto que o Brasil nunca tinha sido agraciado com a premiação mais elevada do circuito literário.
A justificativa da Academia Sueca para a premiação de Bob Dylan se baseia no fato (justíssimo, aliás!) dele ter criado “uma nova expressão poética na tradicional canção americana”. Creio que a genialidade de Dylan vai além disso: ele não apenas é um artista tão referencial quanto Cole Porter, George Gershwin ou a dupla Rodgers – Hammerstein; a poética de “Siñor Bob” fez da canção em língua inglesa um verdadeiro objeto de estudo, de discussões acadêmicas de polêmicas individuais. Sem contar que a influência de Bob Dylan sob os Beatles, os Rolling Stones, David Bowie e tantos outros é inquestionável: um novo padrão de compor canções foi estabelecido pelo mentor destes artistas. Além disto, as duplas Lennon & McCartney e Jagger & Richards jamais teriam jeito o que fizeram sem ouvirem o que o Sr. Zimmermann tem dito ao mundo por mais de meio século.


Nascido Robert Allan Zimmermann em 24 de maio de 1941 em Duluth, Minnesota, Bob Dylan abandonou a universidade e trocou os estudos pela música no início da década de 1960. Gravou cerca de 70 álbuns e já transitou por diversos estilos musicais (Folk, Rock e Standards, dentre eles) em mais de cinco décadas de atividades. É o único artista do mundo que pode ostentar um Oscar, um Globo de Ouro, um Pulitzer e agora um Nobel de Literatura. Além de cantor e compositor, é pintor, ator, roteirista, poeta (sim, gente: ele publicou um livro de poesias em 1971) e já publicou um livro de memórias – Crônicas: Volume Um (2004). E continua fazendo discos e turnês no alto dos seus 75 anos de idade e atraindo multidões para os seus shows. Um feito e tanto para um artista de sua geração em uma época na qual os mais jovens pouco se interessam em comprar discos.


Os integrantes da Academia Sueca compararam a poética de Bob Dylan ao legado de Homero e Safo. A justificativa do comitê julgador foi clara e direta: se a Literatura da antiguidade era, na verdade, feita para ser cantada, se os trovadores da Idade Média faziam poesia para ser entoada através do acompanhamento musical, qual é a razão para não reconhecer o legado do maior trovador moderno vivo? O fato dele não ter escrito romances ou mais livros de poesia? O fato dele sempre ter sido um ídolo das massas e não um queridinho das elites intelectuais? Ou o fato de Dylan não se assemelhar à figura empoeirada de um intelectual?


A turma de críticos ao ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2016 se fez presente logo depois do anúncio oficial da Academia Sueca. Os chatos acharam um absurdo a hipervalorização de um músico “entediante”. Já os pernósticos de plantão ficaram indignados com a premiação de um “artista do Rock” com o maior prêmio literário que poderia ser concedido a alguém.
Os chatos de galocha desprezam Dylan por causa de voz roufenha, antimusical e de difícil apelo popular. Apesar de reconhecerem seu indiscutível talento, acham suas canções longas demais e nada indies, ou seja, Bob Dylan pode até ser respeitado pelo vasto e consistente “conjunto da obra”, mas não é cool como Leonard Cohen, David Bowie, Iggy Pop ou o Radiohead. Nesta ala ainda há os “protecionistas da canção brasileira” que lamentam o fato de que talentos nossos do porte de Chico, Caetano, Gil e Milton (para não citar outros!) jamais seriam agraciados com um Nobel de Literatura pelo infortúnio irremediável de terem nascido brasileiros.


A turminha dos pernósticos acadêmicos, por sua vez, ficou enraivecida com o fato de Bob Dylan estar ao lado de nomes “sagrados” da Literatura Mundial como Gabriel García-Márquez, Dario Fo, Nadime Gordimer, Samuel Beckett, Alice Munro, Jean-Paul Sartre, José Saramago, Harold Pinter, Mario Vargas-Llosa, J.M. Coetzee, Toni Morrison e Pablo Neruda. Violeiro maconheiro comunista abocanhando o Nobel? E ainda sem ter escrito um romance, ensaio ou peça de teatro? Sem ter supostamente produzido uma linha sequer de literatura?
Os coleguinhas pernósticos se esquecem (ou se recusam a entender) que o gênero lírico é composto não apenas da poesia publicada nos livros (palavra escrita), como também daquela que está impressa nos encartes dos discos e é cantada pelo poeta da canção e de outros milhares que o acompanham (palavra cantada). Já os chatos de galocha desvelam o preconceito contra a voz de Bob Dylan e desconsideram a obra monumental construída por ele e que não se encaixa em nenhum dos padrões comerciais. Afinal de contas, como classificar um épico de oito minutos sobre um lendário lutador de boxe?
O prêmio de Dylan é a prova cabal de que a poética da canção deve ser definitivamente reconhecida com a mesma qualidade literária de romances, ensaios, poemas e peças teatrais. Que Mr. Zimmermann seja apenas o primeiro músico a obter a honra máxima do universo literário; assim, o preconceito e a arrogância dos que hoje se levantam contra o ganhador do Nobel de Literatura ficará restrita a círculos elitistas ou aos arquivos da história.
No final da gravação que os Rolling Stones fizeram para a “Like a Rolling Stone” que está no álbum Stripped (1995), ouve-se a voz de Keith Richards dizendo: “THANK YOU, BOB!”. E eu as repito com um complemento: “Thank you, Bob! No one desserves a Nobel Prize more than you do”...

DYLAN’S TOP 10:

 1)  Like a Rolling Stone


       2) Blowing in the Wind


     3)  Subterranean Homesick Blues


      4)  Hurricane


       5)  Lay, Lady Lay


      6)  Positively 4th Street


     7)  Knockin’ on Heaven’s Door


    8)  Forever Young


    9)  Jokerman

    10) A Hard Rain’s A-Gonna Fall



10 RELEITURAS DE DYLAN:

 1)  The Rolling Stones – Like a Rolling Stone


    2)  Blake Mills & Danielle Haim – Heart of Mine


      3)  Simply Red – Positively 4th Street


     4)  Bryan Ferry – A Hard Rain’s A-Gonna Fall


     5)  Gal Costa – Negro Amor [It’s All Over Now, Baby Blue]


      6)  Sheryl Crow – Mississippi


     7)  Phil Collins – The Times They Are A-Changin'


     8)  Guns ‘n’ Roses – Knockin’ on Heaven’s Door


     9)  The Pretenders – Forever Young

 

10) Cida Moreira – Furacão [Hurricane]



LINKS:








15 de outubro de 2016

30 MIL VISUALIZAÇÕES



Eis que, em pouco mais de dois meses, Trovas de Vinil atingiu a marca de 30 mil visualizações.
É muito bom poder compartilhar este acontecimento com vocês que acessam o Blog diretamente do Cafeína, das comunidades do Facebook e de outros cantos desta gigantesca seara virtual a qual chamamos de Internet.
Muito obrigado a todos que tem acompanhado o Trovas de Vinil. Temos mantido a página atualizada com mais regularidade para que possamos ter mais novidades musicais por aqui.
Gostaria de deixar meu agradecimento especial a Nilton Serra pela belíssima arte desta foto e por sempre ter me fotografado tão bem...

Beijos e abraços musicais do 
Vinil

12 de outubro de 2016

DISCOS DE VINIL # 3

NORAH JONES - DAY BREAKS (2016)


Desde o início de sua brilhante carreira, Norah Jones surpreendeu o público. Seu disco de estreia, o hiper premiado Come Away With Me (2002), vendeu milhões de cópias no mundo tudo e conquistou fãs de todas as idades. Em pouco tempo, Ms. Jones foi considerada como uma das mais novas "musas do Jazz", o que não deve ter agradado a mocinha de 20 e poucos anos naquela época. Afinal de contas, tratava-se de uma imensa responsabilidade.
Em 15 anos de carreira, Norah gravou seis discos solo, fez participações especiais em inúmeros projetos, sem contar a quantidade imensa de trabalhos paralelos. No entanto, depois de uma década e meia andando pelo mundo, depois de dois filhos e de muito sucesso, a filha de Ravi Shankar desejou retornar às suas origens musicais, isto é, à sonoridade do Jazz que lhe tornou famosa. O resultado deste esforço é Day Breaks, o sexto álbum solo de Norah Jones, que teve lançamento mundial em 7 de outubro de 2016.


O disco possui 12 faixas, contando com três regravações e nove composições inéditas. Dentre as inéditas, Norah escolheu a balada "Carry On" como primeiro single do CD - o videoclipe mostra a artista tocando piano na cozinha embalando um casal da terceira idade vivendo a plenitude de seu amor e de suas inúmeras lembranças. As outras duas canções escolhidas para divulgar Day Breaks até a data de lançamento foram "Flipside", um jazz rápido e certeiro que me lembrou bastante os números interpretados por Nina Simone, e o belíssimo blues "Tragedy".


As três canções escolhidas de repertórios alheios comprovam o brilho de Day Breaks, mostrando o quanto Norah Jones se destaca como intérprete. "Don't Be Denied", de Neil Young, foi gravada pelo cantor e compositor canadense em 1973 no renegado álbum Time Fades Away, que nunca recebeu uma edição em CD. Norah adaptou alguns trechos da letra não apenas para poder se expressar no feminino, como também para cantar algumas de suas glórias e dores pessoais. "Peace", de Horace Silver, já tinha recebido uma gravação de Jones em 2002 e chegou a figurar entre as faixas bônus de Come Away With Me; no entanto, a releitura de 2016 contou com o apoio luxuoso de músicos do porte de Brian Blade (bateria) e Wayne Shorter (saxofone). São estes mesmos músicos, inclusive, que fazem da versão de "Fleurette Africaine (African Flower)", de Duke Ellington, o momento mais sublime do disco: a filha de Ravi Shankar dedilha o piano e apenas sussurra enquanto Shorter nos transporta para outra dimensão através de seu sax extraordinário.



Dentre as canções inéditas, "Burn" (Norah Jones / Sarah Oda) e a faixa-título (Norah Jones / Peter Remm) me lembram um pouco da Joni Mitchell de Court and Spark (1974) e The Hissing of Summer Lawns (1975). Já "Sleeping Wild", "It's a Wonderful Time for Love" e "Once I Had a Laugh" são três provas que Jazz é o que Norah sabe fazer melhor, apesar dela ter se enveredado muito bem pelo Folk, pelo Rock, pelo Country, pelo Indie e até pela música Pop. É através do piano que a filha de Shankar consegue expressar melhor seus sentimentos em música e despertar o que há de mais sublime e romântico em cada um de nós.



Day Breaks não é apenas o retorno de Norah Jones ao disco depois de quatro anos longe da música. É o retorno de uma das artistas mais bem-sucedidas do século XXI às suas raízes, ao Jazz, e, tomara, ao merecido sucesso.

9 de outubro de 2016

TROVA # 91

AS LOUCURAS DA CIDADE



"Mas hoje retorna o medo das loucuras da cidade"
(Marina Lima & Antonio Cícero, 1979)


         Desde o dia em que me mudei de vez para São Paulo que eu sofria com o velho dilema de não ter transferido meu título de eleitor para poder votar nos candidatos que se propõem a “administrar” o Planalto de Piratininga. Primeiro porque sempre tive uma preguiça absurda de ir até o cartório eleitoral mais próximo e enfrentar a burocracia de horas para poder fazer o tal do meu “papel de eleitor”. Em segundo lugar, porque nunca levei muita fé no verdadeiro poder de mudança do meu título de eleitor em um país no qual as elites sempre tomaram as decisões políticas, econômicas e sociais. Por fim, não tiro a importância do voto, mas sei que ele não é o único de nossos instrumentos para lutar contra as injustiças do Brasil. Eu lanço mão de minha militância como cidadão, seja no espaço público, seja em algumas conversas privadas para poder lutar contra os desmandos dos que detém o poder.
         Não votei em Fernando Haddad para que ele se elegesse Prefeito de São Paulo em 2012. Demonstrei até uma certa preocupação pelo fato dele ter subido ao poder graças às alianças políticas duvidosas do PT de Lula com um político asqueroso da estirpe de Paulo Maluf. Por outro lado, Sampa tinha padecido por anos nas mãos de administradores irresponsáveis: Celso Pitta, José Serra, Gilberto Kassab e o próprio Maluf levaram esta cidade para um buraco sem tamanho. As gestões de Luiza Erundina e Marta Suplicy foram exemplos concretos de que o Partido dos Trabalhadores já tinha feito bastante pelos paulistanos. Apesar da força daqueles acontecimentos, acreditei na competência de Haddad e torci para que ele fizesse um bom governo.
         O Brasil adentrou uma espiral de polarização política a partir de meados de 2013. O aumento das tarifas de ônibus aqui em São Paulo foi o estopim para que jovens, trabalhadores, a classe média, a mídia e mais alguns fossem para as ruas e se rebelassem contra quase tudo que era da ordem do governo federal. Ir às ruas se tornou em uma demonstração de ousadia e desejo por revolução em uma fração de segundo. Eu me lembro de ter sido radicalmente contra aqueles protestos – afinal de contas, aquele slogan de “Dá licença, mas estamos mudando o Brasil” nunca soou muito bem para os meus ouvidos desconfiados. Nascia ali o ovo da serpente que gerou os movimentos ditos como “suprapartidários” (MBL, Vem pra Rua e outras falanges da velha direita conservadora e fascista e primas distantes da clássica TFP) e que se aliou à mídia para iniciar uma inquisição dos políticos petistas. Dilma Rousseff e seus correligionários passaram a ser o alvo da insatisfação coletiva. Fernando Haddad foi duramente criticado por ter proposto o aumento das passagens A presidenta se preocupou com a voz das ruas e chegou até a propor um plebiscito para que o povo votasse em reformas urgente, vetado pelo congresso. O prefeito recuou de sua decisão, depois de ter mostrado alguma resistência. O PT, ao contrário, não deu a devida atenção para as palavras de ordem e pagou um preço altíssimo por isso.
         Mesmo sofrendo uma série de bombardeios da mídia, Fernando Haddad fez muito mais do que constituir ciclovias em São Paulo. O trânsito, este eterno demônio paulistano, melhorou consideravelmente depois que as Marginais Tietê e Pinheiros tiveram seus limites de velocidade reduzidos a 70, 60 e 50 km / h. As mortes de paulistanos dirigindo pelas ruas e grandes avenidas diminuíram consideravelmente depois da regulação, irritando as elites e a classe média, influenciadas pelos ataques constantes do GAFE (Globo, Abril, Folha & Estadão) à gestão petista. Milhares de estudantes receberam passe livre em todos os ônibus da cidade, enquanto vários trabalhadores tiveram a opção de utilizar o transporte público graças ao Bilhete Único Mensal. Além disto, Haddad construiu mais de 400 km de ciclovias, faixas exclusivas e corredores de ônibus e regularizou o aplicativo UBER, para que tivéssemos melhores opções de táxis na capital. A classe trabalhadora deveria agradecer imensamente ao prefeito eleito para o mandato 2013-2017: o tempo gasto pelo trabalhador para ir e voltar foi reduzido em 4 horas / semana.
         Outro ponto importantíssimo da administração de Haddad foi em relação ao trato com as minorias e os movimentos sociais: incentivou o reflorescimento do Carnaval de Rua de São Paulo; abriu a Av. Paulista para os pedestres e os ciclistas aos domingos; fez excelentes políticas de apoio à comunidade LGBT (o programa “TRANSCIDADANIA” dentre eles); criou o “Braços Abertos”, que abordou a questão do consumo de entorpecentes de uma maneira muito mais humana; instalou Wi-Fi nas praças e nos ônibus, obrigou os taxistas a cobrarem tarifas através de máquinas de cartão (uma excelente medida de segurança para motoristas e passageiros); construiu creches e quase zerou a fila de espera de vagas nestas instituições; sancionou uma lei obrigando as escolas municipais a incluírem alimentos orgânicos nas merendas dos estudantes; colocou ar-condicionado, carregador de bilhete único e de celular na frota de ônibus; ampliou o horário de trânsito do transporte público (sim, podemos pegar ônibus de madrugada!).



         Em relação à eficiência dos gastos públicos, Fernando Haddad se provou como um verdadeiro trabalhador no quesito eficiência: criou um órgão de auditoria independente (a Controladoria Geral do Município); reduziu a dívida do município; recuperou cerca de 280 milhões de reais para os cofres públicos; combateu a máfia do ISS e a corrupção na cidade; aprovou o plano diretor e teve todas as suas contas aprovadas sem nenhuma ressalva. Um detalhe: Haddad jamais foi acusado de ser corrupto e possui uma trajetória idônea e limpa, ao contrário de muitos de seus colegas de partido, para não citar outros exemplos. Seu governo não foi abalado por nenhum caso de corrupção, algo louvável nos tempos de hoje.
         O fato da terceira gestão petista ter beneficiado o maior número de paulistanos enfureceu a mídia e os conglomerados midiáticos, fiadores do antipetismo e do fascismo observado nas ruas e nas redes sociais. A campanha de massificação e distorção dos fatos a favor de uma elite política mesquinha e incompetente não tinha apenas o intuito de derrubar Dilma Rousseff, como também tinha o principal alvo o prefeito da cidade mais importante do país. Conseguiram: elegeram João Doria Jr., um aristocrata, filho de uma família de escravocratas e membro do PSDB, ainda no primeiro turno das eleições municipais de 2016.


         O quinquagésimo-quarto prefeito eleito para governar a cidade de São Paulo representa a mesma política velha e carcomida que está no Governo do Estado há mais de 20 anos. Fizeram pouquíssimo pelo transporte público; não adotaram medidas para as minorias, tampouco para a educação; são frequentemente acusados de desvio de dinheiro e são coniventes e irresponsáveis com a violência crescente. A eleição de Doria não é apenas a representação do retrocesso político e social que foi instituído no Governo Federal a partir de um golpe parlamentar financiado pelo PSDB: é o fruto da irresponsabilidade das alianças feitas pelo PT no passado e da desunião das forças políticas de esquerda, impossibilitadas de pensar em um projeto coletivo para uma das cidades mais importantes do mundo. Lançaram mão do discurso populista e demagógico da “indústria da multa” e de outras falácias para conquistar o voto das periferias.
         O antipetismo encontrou ecos na classe trabalhadora, descrente no projeto inclusivo e humanista do Partido dos Trabalhadores. Os trabalhadores serão os primeiros a pagar o alto preço de terem eleito um lobista. Os abstinentes e os que votaram nulo vão, mais uma vez, sentir na carne a imprudência de não terem cumprido seu papel de eleitores. A classe média sofrerá os efeitos de um governo feito exclusivamente para as elites no próprio bolso. Não estou lançando mão do discurso tucano do “quanto pior, melhor”, mas a fala do prefeito eleito que ecoa pelos quatro cantos da mídia nos mostram uma tragédia inevitável. São Paulo deve voltar a sentir o gosto amargo das loucuras da cidade...

LEIA AQUI O PREÇO ALTO QUE SÃO PAULO IRÁ PAGAR COM A ELEIÇÃO DE DORIA:

















7 de outubro de 2016

TROVA # 90

SOB O LUAR DE HAVANA
(ou o amor correspondido dos Rolling Stones por Cuba)


Para Gabi Medelo, com muito amor...

“I thought you needed my lovin',
But it's my heart that you stole.
I thought you wanted my money,
But you plundered my soul.”
(Mick Jagger & Keith Richards, 1972/2009)

       
         Foi na noite em que vi um concerto inesquecível da Buena Vista Social Club que eu passei a desejar umas férias em Cuba. Não apenas pela história de lutas e repressão que a ilha de Che e Fidel viveram por anos de comunismo, radicalismo político, como também pela beleza “vintage” do lugar, com também pela música belíssima dos cubanos e pela admiração que possuo por toda aquela bela gente. A partir de outubro de 2016, ganhei mais um excelente motivo para querer fazer as malas e conhecer Havana o quanto antes.


         Quando soube que os Rolling Stones iriam encerrar sua gloriosa Olé Tour com um concerto gratuito em Cuba depois de varrer várias cidades da América do Sul com muito Rock ‘n’ Roll não achei apenas algo justo. Tinha a certeza de que seria um evento inédito e extraordinário ou até um pouco mais do que isso: algo revolucionário mesmo. Afinal de contas, o Rock tinha sido banido na terra de Che Guevara desde que o Comunismo subiu ao poder e o embargo imposto pelos EUA e Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood foram os primeiros artistas do universo roqueiro a dar expediente por lá após a retomada das relações dos norte-americanos com os cubanos.




         No entanto, uma coisa deve ficar bastante clara: o concerto dos Rolling Stones em Cuba na noite de 25 de março de 2016 não foi mais um mero feito notável para a banda. Foi a realização mais importante para a primeira banda de Rock que tocou na China após a abertura da economia daquele regime, que reuniu cerca de 2 milhões de pessoas na Praia de Copacabana e que sempre bate recordes constantes de bilheteria após o final de cada uma de suas turnês. O fato de estarem na estrada há mais de meio século e de ocuparem o posto mais inalcançável no panteão da música popular dos últimos tempos ao lado dos Beatles é algo insuficiente para Mick Jagger e seus companheiros musicais. Eles sempre descobrem outras barreiras a serem derrubadas através de sua música que está sempre a prova de qualquer sinal de envelhecimento.


         A Ciudad Desportiva de Havana recebeu cerca de 1 milhão e duzentos mil cubanos que estavam ávidos e excitadíssimos para verem os Stones ao vivo. Graças às lentes e à direção eficientíssima de Paul Dugdale, aquela noite de março de 2016 foi registrada no belíssimo documentário Havana Moon, que registrou não apenas os momentos mais emocionantes do concerto, como também nos mostrou a felicidade dos membros da banda em estarem naquele palco. Um esforço cinematográfico que não deve nada ao trabalho notável de cineastas de renome como Martin Scorcese, Jean-Luc Godard, Brett Morgen, Hal Ashby ou Robert Frank, que já fizeram filmes excelentes com os músicos.


         Qual são os verdadeiros trunfos de Paul Dugdale em Havana Moon? Ele consegue transmitir a energia de Jagger, Richards, Watts e Wood no palco nos dando a impressão de que eles estão bem na nossa frente – conquista a qual apenas Martin Scorcese pode ter o poder de se orgulhar. No entanto, ao contrário do diretor de Taxi Driver, Dugdale nos ofertou algo que eu jamais tinha conseguido observar em um documentário sobre os Stones: poder ter a oportunidade de ver o que o acontece por detrás no palco segundos antes do espetáculo começar ou durante as corriqueiras trocas de figurino ao lado da mesa de som da banda, por exemplo. Ver que Mick Jagger e Keith Richards ainda se revelam ansiosos antes de entrar em cena é algo surpreendente e comovente ao mesmo tempo, pois nos dá a oportunidade de ver o quão humanos estes músicos são. Outro fator fascinante do filme é a alegria emocionante dos cubanos presentes em assistir, cantar, chorar e bailar com os longevos ingleses – o amor daquela gente pela música dos Rolling Stones se traduzia em cada lágrima, em cada aplauso, em cada palma que se batia na Ciudad Desportiva de Havana.


         Havana Moon teve uma única exibição nos cinemas dos EUA e do Reino Unido na noite de 23 de setembro de 2016 e passou como um cometa pelas salas do Cinemark na noite de 06 de outubro de 2016. Por se tratar de um evento único, nem hesitei ao correr para o cinema mais próximo do trabalho para testemunhar uma das noites mais inesquecíveis da trajetória dos Rolling Stones. Para meu consolo e de muitos fãs da banda desejosos em ver ou rever o filme, um DVD será lançado em novembro de 2016 para que possamos ter mais imagens de arquivo de uma das bandas mais queridas de toda a história da música.






Por se tratar de um registro belíssimo, o trabalho de Paul Dugdale se torna tão representativo quanto outros documentários já realizados por Martin Scorcese (Shine a Light), Jean-Luc Godard (Sympathy for the Devil), Robert Frank (Cocksucker Blues), Hal Ashby (Let’s Spend the Night Together) e Brett Morgen (Crossfire Hurricane). Não apenas por suas câmeras eficientíssimas, sensíveis e precisas, mas principalmente por desvendar o principal mistério do sucesso dos Rolling Stones após tantas décadas: é o público quem mantém a banda unida; a partir de tamanha admiração, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood conseguem reestabelecer o encantamento dos fãs, como também se mantém como referência absoluta de espetáculos ao vivo. Havana Moon nos mostra o porquê dos Stones serem simplesmente incomparáveis e insubstituíveis enquanto artistas e, por isso, é um documento histórico de suma importância para quem deseja compreender os rumos da história recente da arte e da política dos séculos XX e XXI.