11 de maio de 2021

TROVA # 165

“LONGAS CARTAS PRA NINGUÉM”


“Por que escrevemos?

Porque não podemos somente viver”

(Patti Smith – Devoção)



         Do tempo em que escrevíamos cartas, as pessoas davam uma importância gigantesca a papel, caneta, envelope e selos para que notícias, confissões e juras de amor e de ódio pudessem ser transmitidas para o destinatário que fosse. Com a chegada da Internet, das redes sociais e dos smart phones, tamanho encantamento se desfez e as correspondências perderam a sua intensidade: o avanço das tecnologias provocou uma mudança fatal da relação dos humanos com as palavras e as longas correspondências tornaram-se mais um resquício do passado. Quase toda comunicação relacionada às correspondências se tornou restritamente técnico e objetivo, as confissões mais íntimas viraram “textões” ou foram comprimidas em meros 140 caracteres no Twitter.


        A escolha de um blog para dar conta dos pensamentos e memórias que me habitam poderiam ser as crônicas que eu sempre sonhei na coluna do jornal, no portal da Internet ou (quem sabe?) nas páginas de um livro. A escrita que fiz por anos a fio tem sido além de um diário sentimental ou de um journal de críticas e pensamentos avulsos: todos os textos que passaram por aqui são, de certa forma, cartas. Enquanto as palavras do ciberespaço, do jornal e do livro possuem um destinatário específico, certeiro, as minhas correspondências são “longas cartas pra ninguém”, ou melhor, quase ninguém.

        Em uma entrevista de fevereiro de 1977, Clarice Lispector comentou a respeito de um dos assuntos mais discutidos entre literatos: o ato de escrever. Ao ser indagada sobre sua rotina de trabalho, Clarice foi taxativa ao dizer que nunca tinha sido uma escritora profissional e que só se dedicava à Literatura quando queria. Sua afirmação desconcertou por completo seu entrevistador e o público, já que a autora de A Hora da Estrela e Laços de Família já tinha publicado vários romances, contos e textos na grande imprensa até então. Apesar de eu sempre ter nutrido um enorme amor pela escrita (queria ser escritor desde os sete anos de idade!), nunca consegui me sentir um profissional das letras por dois motivos: 1) o anonimato e o meu talento permanente para ser um anônimo; 2) o fato de ter uma profissão que exige tempo e dedicação. Não me satisfaço com o amadorismo, tampouco com o anonimato. Porém, escrever como alternativa foi a solução possível para que eu extravasasse tudo o que eu gostaria de ser, mas que a vida não me permite que eu seja por conta de compromissos e responsabilidades...


         Confessar uma série de coisas nas páginas do papel e pela Internet afora é uma tarefa incomum para alguém que age com a discrição do anonimato. Era uma maneira de compreender a natureza dos fatos e suas consequências. Era um jeito de expressar a pouca saudade que tenho do passado, a vontade intensa de viver o presente e a loucura insustentável de ter o futuro nas mãos. Ou talvez uma forma de esconder minha própria mediocridade e dar a ela alguma espécie de status. Ou nenhuma das respostas anteriores mesmo, afinal há perguntas para as quais não temos solução.


         No entanto, ainda tenho a breve esperança de que cada texto que escrevi para este blog ou para a coluna de jornal dos meus sonhos possa fazer sentido para alguém, afinal foram mais de 115 mil acessos em nove anos de atividade. Tal qual Brás Cubas, um dos personagens mais célebres da ficção de Machado de Assis, também não tive filhos e não transmiti (até então) a nenhuma criatura o legado de minha miséria. Todavia, deixo vários escritos para a posteridade, um livro publicado e a vontade imensa de vida dentro de mim, apesar da barbárie que se abateu no Brasil e pelo mundo a partir de 2020.


         Faz escuro, mas escrevo e também canto. O mundo pode fazer qualquer tipo de acusação contra mim, menos uma: eu sempre tive histórias para contar. E ainda terrei enquanto tiver um papel, uma caneta e um lápis nas mãos. Porque viver apenas não basta para mim: se eu puder viver tendo a possibilidade de escrever já é algo que me deixa mais feliz. E ser feliz em pleno século XXI é um dos maiores desafios que se apresentam para os seres humanos, especialmente para os que vivem no Brasil...

3 de maio de 2021

TROVA # 164

 

80 ANOS DE UMA LONGA ESTRADA

Roberto Carlos sempre soube aliar minha enorme admiração e o meu profundo desprezo



“Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada

Do tempo que transforma todo amor, em quase nada”

(Roberto Carlos & Erasmo Carlos, 1971)

 


 

Nunca amei e odiei e tanto um artista quanto Roberto Carlos. Amor e ódio são dois sentimentos comuns em pessoas que a gente admira, que a gente ama para que possamos, logo depois, desferir as piores pragas e juras de maldição. Mas não tem jeito: meu cérebro e meu coração sempre entram em conflito permanente quando o assunto é El Rey - apelido que eu dei para o intérprete de “Detalhes”.

 

Roberto Carlos surgiu na minha memória bem cedo: os especiais de TV veiculados pela Rede Globo desde meados dos anos 1970 eram obrigatórios lá em casa, um típico lar do subúrbio carioca. Isso sem mencionar as fitas cassete que meu pai ouvia no carro com os clássicos do Rei. Para uma criança / adolescente do subúrbio na década de 1990, Bob Charles não era o entretenimento mais irresistível do mundo. Enquanto meu pai cantava versos como “Daqui pra frente / Tudo vai ser diferente / Você tem que aprender a ser gente / O seu orgulho não vale nada (...)” de frente para a TV e revivia um clássico da sua juventude, tudo que me sobrava era a inevitável vontade de bocejar até não poder mais. 

 

Eu tinha 12 anos de idade quando Maria Bethânia (por quem já era apaixonado) lançou o seu já clássico disco As Canções que Você Fez pra Mim (1993). Graças àquele álbum, eu passei a ver o cantor que já tinha entoado quase tudo em matéria de música romântica com um pouco mais de respeito. Apesar de ainda achar que Roberto Carlos era sinônimo do que havia de mais antiquado e cafona. Apesar de Bethânia ter feito uma aparição ao lado de El Rey cantando “Fera Ferida” em dezembro daquele ano.

 


Foi no início dos anos 2000 que minha percepção sobre Roberto Carlos mudou de vez. Graças à descoberta da Tropicália e da deferência de Caetano e Gil pela turma da Jovem Guarda, eu passei a respeitar El Rey um pouquinho mais. Pouco tempo depois, descobri os seus discos lançados entre 1968 e 1983 - a sua fase mais romântica, adulta, com canções apaixonadas, confessionais, gravadas em estúdios no exterior. Foi inevitável: aos 20 e poucos anos eu ouvia as mesmas gravações que meu pai ouvia no carro em meados dos anos 1980 e me encantava com a qualidade de clássicos como “Detalhes”, “Proposta” e “Além do Horizonte”. Apesar desse repertório me trazer a memória do peru de natal que comíamos no final do ano e a lembrança das canções inevitáveis chatíssimas que viriam no pacote, passei a ouvir um pouco mais a obra de Roberto.

 

Porém, toda relação conflituosa tem os seus altos e baixos e 2007 foi o ano em que as minhas predileções por El Rey caíram por terra. Como reação ao lançamento da biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita pelo competentíssimo Paulo César de Araújo (professor, jornalista e acadêmico de primeiríssima linha), o Rei não hesitou duas vezes antes de ir aos tribunais para tentar retirar o livro de circulação. Motivo: “invasão de privacidade”. Roberto, um notório conservador (e apoiador da Ditadura, dizem as más línguas), não admitiu ver certas passagens de sua vida reveladas com tanta precisão. Paulo César, um fã confesso de Bob Charles, escreveu um texto respeitoso, honesto, de uma beleza singular. Uma declaração de amor em forma de livro. Mesmo assim, El Rey, do alto de sua ingratidão, não perdoou seu súdito; processou o autor, recolheu os livros e provavelmente os queimou. Afinal de contas, seus segredos, conquistas amorosas ou suas puxadas de tapete não poderiam ficar expostos diante do público conservador que sempre o apoiou. 

 

Quando Roberto Carlos se revelou um autoritário de primeira linha, fazendo inveja a Hitler (que queimou livros em praça pública), passei a nutrir um ódio mortal por Vossa Majestade. Por sorte, adquirimos uma cópia do livro de Paulo César de Araújo em janeiro de 2007, já prevendo que El Rey poderia mobilizar seu exército de advogados para impedir que os detalhes de sua intimidade fossem devidamente catalogados e analisados em uma biografia. Ao somar todas as taras e manias do astro que se tornaram públicas, eu passei a fazer da transmissão de seus especiais de TV uma oportunidade e tanto para exercitar um dos meus maiores talentos: o de maldizer. Já que Vossa Majestade está na pista com todos os seus TOCs, por que não tirar proveito disso? 


 

O início da carreira de Roberto Carlos, como se sabe, foi marcado por uma quantidade de portas fechadas e nãos de todos os tipos, já que ele sempre foi um cara humilde, suburbano e sem uma voz de arrebatar multidões como Cauby Peixoto ou Francisco Alves. Tentou fazer sucesso sempre indo atrás dos ritmos que faziam sucesso na época: começou imitando Elvis Presley, depois tentou ser um cantor de Bossa Nova e finalmente estourou nas paradas de sucesso com o Iê-Iê-Iê. Quando sentiu que o público estava se cansando do som da Jovem Guarda não pensou duas vezes antes de pular do barco e começar a fazer uma música mais adulta, madura, com o objetivo de embalar as massas. 

 

Sua guinada na virada dos anos 1960 para os 70 deu muito certo: seus discos, sempre lançados na época do Natal, vendiam 1 milhão de cópias no auge do sucesso. Roberto sempre soube estar na crista de onda, seguindo as tendências musicais e o que tinha potencial de venda. Por isso, chegou a cantar com artistas de todos os tipos e tendências. Não porque eles eram necessariamente talentosos (muitos deles ainda são!), mas porque eles são máquinas de fazer dinheiro! El Rey, como bom vampiro musical, precisava sempre se reconectar com novas faixas de ouvintes.


 

Roberto Carlos chegou aos 80 anos de idade em abril de 2021 com a certeza absoluta de que é o maior nome que o showbiz brasileiro já produziu em décadas. Antes um desconhecido cantor de boates vindo do subúrbio, El Rey conquistou o seu respeitável público (composto de classes mais baixas) com o seu carisma exposto pela TV, para depois cantar para pagantes bem endinheirados em estádios, casas de show e em cruzeiros com ingressos a preços estratosféricos. Desprezado pelas elites no passado, adulado pelos mais endinheirados e pelo mesmo povão que sempre o amou, Roberto é dono de uma obra monumental, cujas canções mais emblemáticas - compostas em parceria com Erasmo Carlos seu “eterno amigo de fé e (...) irmão camarada” - compõem a lista dos maiores clássicos da nossa música. 

 

Apesar das inúmeras decepções com a figura pública, todas essas desilusões tendem a sumir na longa estrada. Afinal de contas, os ídolos sempre despertam um amor sem limite dentro de cada um de nós...

23 de abril de 2021

TROVA # 163

UMA NOITE COM JUDY GARLAND

Relembrando Judy at Carnegie Hall 60 anos depois...

 


“The world is a stage

The stage is a world 

of entertainment!”

(Arthur Schwartz & Howard Dietz)

 

“Weep no more, my lady

Sing that song again for me”

(Jean Schwartz, Sam M. Lewis and Joe Young)



 

 

Foi em uma noite de domingo como qualquer outra. Uma mulher de 38 anos e de 1 metro e 51 centímetros subiu ao palco do Carnegie Hall, uma das casas de espetáculo mais prestigiadas do mundo, para mais uma apresentação ao vivo de seu show. No setlist havia canções de amor, de alegria, de tristeza, de desilusão, desespero e até alguns versos que nos trouxessem um toque de leve esperança. O espetáculo seria um evento qualquer se a moça em questão não atendesse pelo nome de Frances Ethel Gumm, mais conhecida entre nós com o nome artístico de Judy Garland.

 



 


Quando Judy Garland subia em cima de um palco ela deixava de ser uma mulher frágil e insegura de 1,51 m para se transformar em uma verdadeira gigante. Ao interpretar os clássicos de Harold Arlen, Johnny Mercer, Richard Rodgers, Lorenz Hart, Howard Dietz, Dorothy Fields, Jimmy McHugh, dos irmãos George e Ira Gershwin e tantos outros baluartes da canção norte-americana, ela parecia ser bem mais velha do que os 38 anos que ela tinha naquela noite. Suas apresentações ao vivo eram repletas de intensidade, de muita energia, sarcasmo e bom humor e quem estivesse em sua plateia garantia que um show de Judy era sempre um evento inesquecível. Ela cantava cada nota dando o máximo de sentimento que sua voz pudesse oferecer para o ouvinte, a ponto de que poderia desfalecer no minuto seguinte. Seus admiradores a amavam por causa disso, outros nem tanto, pois achavam tudo aquilo um tanto over.

 





Judy precisou de um pouco mais de duas horas para escrever seu nome na história do entretenimento com a apresentação que deu origem ao álbum Judy at Carnegie Hall, lançado como LP duplo em julho de 1961. O disco fez um enorme sucesso na época e foi o primeiro trabalho gravado por uma mulher a ganhar o Grammy de Melhor Álbum do Ano e é o registro oficial do que batizaram de “a maior noite na história do show business”. Ao ouvi-lo seis décadas depois de seu surgimento, ainda podemos sentir todo o magnetismo de uma das maiores artistas que o mundo já assistiu.


 

Apesar do êxito comercial de seu álbum ao vivo, Judy Garland já tinha garantido seu nome na galeria das maiores lendas de Hollywood ao dar vida à jovem Dorothy Gale em O Mágico de Oz (1939). Ao ser alçada para o estrelato, seguiram-se os percalços: a celebridade, o vício em álcool e drogas, os relacionamentos fracassados, seus três filhos e vários escândalos. Tal qual outras lendas de seu tempo como Elizabeth Taylor, Marilyn Monroe ou Carmen Miranda, Judy foi tragada pelo star system que fez dela um dos nomes mais importantes do entretenimento do século XX. Infelizmente, o sucesso foi o combustível da maior parte de sua tragédia. Porém, sua arte sempre falou mais alto.

 


Considerada um dos maiores ícones da comunidade LGBTQIA+, Judy Garland influenciou uma quantidade significativa de astros e estrelas de outras gerações. Rufus Wainwright, cantor canadense e ícone gay, é tão aficcionado pela artista que chegou a gravar um álbum ao vivo refazendo o roteiro de Judy at Carnegie Hall. Liza Minnelli, sua filha mais velha, seguiu os passos da mãe e se tornou uma cantora e atriz respeitável. Barbra Streisand, que já possui seis décadas de serviços prestados ao entretenimento, sempre foi fã da intérprete de “Over the Rainbow”. Por aqui no Brasil, temos em Maria Bethânia uma devota confessa da arte de Ms. Garland. É mais do que notório que Judy deixou um legado importante para seus fãs e sucessores quando morreu, em julho de 1969. Artistas de sua estatura são cada vez mais raras nos tempos atuais. Por isso, jamais devemos nos esquecer dela e de tudo de bom que ela já fez.


 

Por isso, 23 de abril de 1961 deve ser uma data que sempre deve ser lembrada como uma das noites mais importantes da história do entretenimento. Judy at Carnegie Hall  traz uma artista com toda a sua vivacidade em cena.. Uma cantora e atriz que desafia as leis da física, da lógica e da emoção ao arriscar as tonalidades mais agudas para transmitir o sentimento de cada verso que ela cantava em cima de um palco. Uma aula de interpretação musical que não deve ser esquecida com o passar das décadas, apesar da vontade de relegar a arte à ignorância e ao ostracismo...




16 de fevereiro de 2021

TROVA # 162

 

MEMÓRIAS DE FEVEREIRO


“Sai do lixo a nobreza

Euforia que consome

Se ficar o rato pega

Se cair urubu come

 

Vibra meu povo

Embala o corpo

A loucura é geral

Larguem minha fantasia

Que agonia... Deixem-me

Mostrar meu carnaval

 

Firme... Belo perfil!

Alegria e manifestação

Eis a Beija-flor tão linda

Derramando na avenida

Frutos de uma imaginação”

(GRES Beija-Flor, 1989)



“Brasil, meu nego

Deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra

 

Brasil, meu dengo

A Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero um país que não está no retrato”

(GRES Estação Primeira de Mangueira, 2019)



            Por conta de uma pandemia que já ceifou quase 240 mil vidas em nosso país, assisti algo inédito em 40 anos de passagem por este mundo: mês de fevereiro sem cores, sem alegria, sem irreverência, sem batucada nas ruas. Para não deixar o período de Momo passar em branco, a passarela do samba, localizada na Avenida Marquês de Sapucaí, ficou iluminada com as cores das agremiações que levam alegria para tantas pessoas do período entre a sexta-feira de carnaval e a quarta-feira de cinzas. Mês de fevereiro sem carnaval é como mês de junho sem Festa Junina ou mês de dezembro sem Papai Noel: não tem a menor graça!

            Apesar das restrições, muitos resolveram aproveitar a oportunidade para vestir uma fantasia, resgatar uma maquiagem mais colorida ou uma peruca velha e ficar curtindo os festejos de casa mesmo. A TV Globo aproveitou o fato de que há mais pessoas dentro de seus lares para reprisar desfiles marcantes das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, para os saudosos de antigos carnavais. Neste ano, aproveitei mais uma vez a oportunidade para ficar recolhidos com meus pensamentos, manias e obsessões para tentar colocar a cabeça no lugar. Em ocasiões como esta, as memórias acabam resgatando momentos nos quais a vida ainda pode valer a pena.

            Como bom carioca que sou – fui nascido e criado com a vivência de sambas-enredo e escolas de samba dentro de casa –, sempre mantive na memória os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Eu tinha acabado de completar 8 anos de idade quando Joãosinho Trinta, na época carnavalesco da Beija-Flor de Nilópolis, tentou levar um Cristo mendigo para a passarela do samba para compor o enredo “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia!” em fevereiro de 1989. Estarrecida com a ousadia de Joãosinho (onde já se viu contar uma parte de nossa história utilizando um Jesus em farrapos?), a Igreja Católica armou uma enorme confusão, censurou o desfile e o carnavalesco quase foi parar na cadeira por conta da ousadia de sua arte.

Não me lembro de quase nada daquele desfile, mas o que vi e mal entendi daquela passagem da Beija-Flor pela Avenida Marquês de Sapucaí está disponível nos arquivos das emissoras de televisão e no YouTube para a nossa imensa alegria. Censurado em um Brasil que reaprendia a ser democrático, Joãosinho Trinta resolveu não deixar barato: levou o Cristo para a passarela do samba, porém coberto de sacos de lixo com os dizeres “MESMO PROIBIDO, OLHAI POR NÓS!”, gerando uma verdadeira comoção e causando ainda mais rebuliço diante do moralismo que nos censura até hoje.



            Outro desfile que ficou guardado na memória do inconsciente coletivo – e eu me incluo entre essas pessoas, porque eu lembro bem! – foi o lendário desfile da Estação Primeira de Mangueira entre o domingo e a segunda-feira de carnaval trinta anos depois da barulhenta e controversa passagem da Beija-Flor pela mesma passarela do samba, em 2019. Frustrado com uma passagem mediana da Portela pela Avenida Marquês de Sapucaí (naquele ano, a homenageada era Clara Nunes, uma de suas portelenses mais ilustres e uma das cantoras preferidas daqui de casa), já estava me preparando para desligar a TV e ir dormir quando eu vi a apresentação da agremiação de Cartola no seu início.

            Duas ou três pessoas me advertiram a respeito da beleza do samba-enredo da Mangueira para o ano de 2019 e eu não dei o menor crédito por pura implicância, provavelmente. Mesmo assim, decidi dar uma chance aos mangueirenses e fiz questão de ficar acordado às 4 horas da manhã para assistir o que eles tinham preparado para a Marquês de Sapucaí. Em menos de cinco minutos fui completamente arrebatado pela beleza de um dos desfiles de carnaval mais inesquecíveis da minha vida. Estava diante de um samba-enredo imbatível: refrão encantador e fácil de ser assimilado, belas fantasias e alegorias, irreverência mil e uma proposta (ousadíssima) de recontar a história do Brasil tão bem contada pelos brancos bem-sucedidos e muito mal contada sob a perspectiva de negros, indígenas, pobres e outros que nunca compactuaram com as artimanhas do poder oficial.

            Fazer o brasileiro pensar em coisa séria na madrugada de uma segunda-feira de Carnaval e reverenciar heróis vivos e saudosos é o maior legado que a Estação Primeira de Mangueira deixou para todos naquele desfile de 2019. Além de deixar registrado em versos e sons a luta de nomes como Leci Brandão, Zuzu Angel, Jamelão, Mussum, Dandara, Aqualtune, Chunhambebe, Luísa Mahin, Tereza de Banguela, Mariana Crioula, Carolina de Jesus, Aleijadinho, Marielle Franco e tantos outros para que possamos ter a oportunidade de conhecer quem são os verdadeiros lutadores da nossa pátria. O carnaval de sambódromo, essa arte tão elitizada e tomada pela arrogância das celebridades, dos bicheiros e dos pagantes dos custosos camarotes vai de volta para as mãos do povo que o criou.

        Leandro Vieira, carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira e um excelente discípulo de Mestre Joãosinho Trinta, decidiu ignorar reis, rainhas, escravocratas e bandeirantes que mancharam as páginas da história de nosso país de sangue, suor e opressão para resgatar a memória daqueles que não puderam ver seus nomes, fotos ou ilustrações nas páginas dos livros. Seguindo a cartilha de um dos maiores mestres da história do carnaval, Leandro fez questão de encerrar o desfile da Mangueira com uma bandeira do Brasil estilizada de verde e rosa e com os dizeres “Índios, Negros e Pobres” no lugar dos dizeres “Ordem e Progresso” que ocupam o símbolo da nossa soberania. Os excluídos pela “história oficial” receberam uma consagração merecida 519 anos depois da “descoberta” da Terra do Carnaval. Contar as memórias de nosso país sob a ótica de mulheres, de indígenas e de torturados pela Ditadura Militar em tempos de retrocesso democrático é, sobretudo, um gesto de ousadia e coragem tal qual Joãosinho fez à frente da Beija-Flor de Nilópolis trinta anos antes.


          A folia não existe apenas para o mero desfrute e entretenimento dos brasileiros nas ruas, avenidas e passarelas do samba: ela existe também para que as pessoas possam demonstrar o descontentamento coletivo perante o poder oficial, por isso a ira de nossos governantes contra o carnaval é permanente. A sátira e a resistência são as armas dos oprimidos para sobreviver às misérias e aos desmandos do dia-a-dia. Por isso, não me surpreendi nem um pouco ao ver os defensores do atual governo, conservador e retrógado por excelência, amaldiçoando o não-carnaval de 2021 como se fosse um castigo divino por uma imagem de um Jesus Cristo sendo torturado por um diabo estilizado.

Ainda precisamos de muitos Joãosinhos e Leandros que tenham a coragem de colocar os tabus para desfilarem nas passarelas do samba para espantar a caretice e a desonestidade daqueles que nos (des)governam. Para desgosto e desespero da turba conservadora e mesquinha, em 2022 voltaremos para fazer um dos carnavais mais bonitos da história, dignos de fazer parte das “memórias de fevereiro” que fazem parte do inconsciente coletivo de muitas pessoas.

7 de fevereiro de 2021

TROVA # 161

A CORRENTE QUE NUNCA QUEBRA

Algumas coisinhas sobre o Fleetwood Mac...

“Listen to the wind blow

down comes the night

 Running in the shadows

damn your love, damn the lies

Break the silence

damn the dark, damn the light”

(Mick Fleetwood, John McVie, Christine McVie,

Lindsey Buckingham & Stevie Nicks, 1977)



            As novelas de TV deixaram de ser meu programa preferido quando entrei no final da adolescência, já no final da década de 1990. Com a desculpa da vida adulta e dos compromissos que já tinha por conta dos meus primeiros anos de faculdade, deixei de prestar atenção nos folhetins de televisão, com suas tramas e estereótipos repetitivos. Nada contra mestres do gênero como Silvio de Abreu, João Emanuel Carneiro ou Aguinaldo Silva, mas, em tempos de hormônios e paixões em estado de efervescência, só prestava atenção nas aberturas das novelas e olhe lá...

            Eis que, anos depois, já imerso nos prazeres e desprazeres da vida adulta, estava com a TV ligada esperando o início de mais uma novela de Aguinaldo Silva no horário nobre da TV Globo quando ouço algo bastante familiar: as batidas de um bumbo e um riff de violão, compondo algo quase hipnótico. Em questão de segundos, reconheci a introdução de “The Chain” (1977), uma das canções mais importantes de todo o repertório do Fleetwood Mac, tema escolhido para a abertura da novela O Sétimo Guardião (2018), última novela de Aguinaldo na Globo. A trama em si, aparentemente interessante, misturava realismo mágico e algumas tintas de mistério, mas se perdeu em milhares de enganos, mas tinha uma trilha de abertura cativante.


            Foi em meados dos anos 1990 que eu descobri um vício irremediável: o de ser completamente diferente dos meus companheiros de geração. Com 16 anos de idade, ao invés de prestar atenção no que havia de mais comum nas tendências musicais, eu ouvia a Antena 1 Rádio FM, mesma estação de rádio que meus pais e avós ouviam. Graças à programação daquela rádio vintage, descobri o Fleetwood Mac entre uma canção empoeirada e outra não tão antiga assim. Enquanto o mundo queria ouvir Puffy Daddy, “Barbie Girl” ou o último sucesso das Spice Girls, eu queria ouvir o significado por trás dos versos de canções como “Dreams” ou “You Make Loving Fun”.


            Aos poucos descobri que as canções do Fleetwood Mac que eu ouvia por aí foram gravadas pela sua formação clássica (a banda teve algumas outras antes de ser um fenômeno de vendas) – Mick Fleetwood: bateria; John McVie: baixo; Christine McVie: piano, teclados e vocais; Lindsey Buckingham: guitarras; Stevie Nicks: vocais. Induzido pelo gosto musical dos adultos da família, encontrei um CD de sucessos da banda em uma loja de discos perto de casa e fui reconhecendo cada uma das melodias que ouvíamos em casa, no carro, na casa dos meus avós, nos passeios de carro etc. No final da década de 1990, a banda preferida do ex-presidente norte-americano Bill Clinton gravou um especial de TV para a MTV norte-americana, reunindo Fleetwood, Buckingham, Nicks e os McVie depois de uma década, despertando ainda mais meu interesse, já que a banda passou a ser uma presença (ainda que bissexta) na programação da MTV Brasil.



 

            Não creio na existência de outra banda na história do Rock que possua tantas brigas e disputas internas como o Fleetwood Mac. Perto deles, Mick Jagger e Keith Richards seriam apenas duas velhas comadres que brigavam de vez em quando, enquanto os Beatles seriam quatro rapazes fofinhos e bem-comportados de Liverpool. Nem o talento indiscutível de Fleetwood, Bukingham, Nicks e dos McVie conseguiu combater os excessos do uso de drogas, os egos imensos dos músicos, além das separações dos casais (Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, antes de integrarem o grupo, tinham uma tórrida relação de amor; John e Christine McVie, como indicam o sobrenome em comum, eram casados até meados da década de 1970). Pelo contrário: os cinco músicos aproveitaram as separações, as frustrações e as juras de amor e ódio que havia entre eles para dar vida ao que existia de mais revigorante em matéria de repertório. Além disso, a banda tinha o diferencial inigualável de ter duas mulheres cantoras e compositoras à frente do grupo, fazendo de Stevie Nicks e Christine McVie duas estrelas de primeiríssima grandeza.

             A pedra fundamental da obra do Fleetwood Mac é Rumours, álbum lançado em 1977 que basicamente retrata os prazeres, as dores, as loucuras e as separações dos membros da banda. Lançado após Fleetwood Mac (1975) e antecessor do ambicioso Tusk (1979), as onze canções do disco reúnem clássicos do grupo como “Dreams” (Nicks), “Go Your Own Way” (Buckingham) e “You Make Your Loving Fun” (C. McVie). Cada verso retrata um tesão reprimido, uma frustração evidente, um ódio declarado, um amor desavergonhado: já que nada deu certo, o jeito é seguir o seu próprio caminho e descobrir que esse tal de amor pode ser até um sonho divertido. Em “Silver Springs”, canção de Stevie Nicks que não foi incluída em Rumours, há um tom de ameaça: a mulher amada vai perseguir e aterrorizar o seu amado até o momento de receber uma segunda chance – sim, o sentimento amoroso pode ser profundamente bélico, às vezes. Se quisermos entender a segunda metade da década de 1970 no Rock, basta ouvir os clássicos do Fleetwood Mac e Hotel California (1976), dos Eagles, para compreender a essência de uma filosofia de vida que estava de acordo com o hedonismo e o individualismo que se tornaram a regra das relações de tantos músicos desde então.


            O Fleetwood Mac, apesar das mil tempestades que sempre temperaram sua música, conseguiu sobreviver com o passar das décadas de 1970, 1980 e 1990, mantendo-se como uma das maiores atrações internacionais de todos os tempos. O vai e vem de alguns integrantes chegou a comprometer a magia da banda – Lindsey Buckingham chegou a deixar a banda em 1987 e retornou 10 anos depois; Christine McVie deixou o grupo no final dos anos 1990 e voltou quase 20 anos depois –, mas não apagou o mito em torno da obra. Após uma bem-sucedida turnê entre os anos de 2016 e 2017, o guitarrista entrou em uma série de embates com seus colegas de banda e abandonou os companheiros mais uma vez em meados de 2018 – as más línguas dizem que o lendário guitarrista foi demitido pelo telefone por causa da eterna disputa de egos com Stevie Nicks, sua ex-mulher e ex-companheira de banda, que não quer vê-lo nem pintado de ouro. Tempos depois, soube-se que Buckingham teve um ataque cardíaco quase fatal, talvez por conta do desgosto...


            Com o passar do tempo, novas e velhas confusões continuam surgindo em torno do Fleetwood Mac. Juntos ou separados, brigando ou se amando, os membros da banda sempre farão parte da velha corrente que os mantém unidos, a corrente musical que, mesmo diante das intempéries mais avassaladoras, não quebra jamais. Mesmo quando os eventos no entorno exigem a sua desintegração, a música os une...